Areia a escapar-se por entre os dedos

[NP] Experiências de quase-morte. Ou mais ou menos.

5:21

Expulsam-me com violência, como a personagem de um western que voa pela meia-porta do bar mais chungoso de Little Town, aterrando de costas no meio da rua, no meio do pó, atónito, sem perceber o como e o porquê da posição.

Foge! Sai daqui, larga o sonho! Acorda, caralho!

1 segundo.

O despertar violento é sucedido, quase de imediato, pelo reconhecimento da pintura. Raramente a vi mas reconheço-lhe os traços, sei de cor as nuances, sinto-lhe o cheiro do óleo junto às ventas. É intenso. Fica-nos gravado na alma e segue connosco até ao fim.

Não consigo respirar.

2 segundos.

A primeira tentativa, ainda ligeira, ainda a medo, confirma a intuição: o ar não passa. Não entra, não quer entrar, teima em ficar à porta, desgostado, sentido por qualquer coisa que lhe fizeram, de braços cruzados, amuado, a olhar para o alto a fazer beiço.

Segunda tentativa.

3 segundos.

Tou fodido.

Sinto o primeiro disparo de adrenalina a invadir as veias, a irrigar os centros de controlo, os órgãos, os músculos, o sinal de alerta a ecoar pelo corpo todo,

Scramble! Scramble!

as posições de combate a serem ocupadas por soldados pequeninos, os mecânicos a darem corda aos motores dos Spitfires, enquanto os pilotos voam sobre as asas para entrarem nos cockpits: The game is ON.

Terceira tentativa. Quarta. Para fora, agora. Nada.

4 segundos.

Pânico instalado. O corpo ergue-se num salto involuntário, ajoelha-se, dobra-se ligeiramente e assume uma posição arqueada, um sargento Elias, preparando-se para a contração dos músculos e o esforço derradeiro, super-humano, para acabar com a brincadeira que já vai longa, que já não tem graça,

Parem lá com isso, foda-se!

que pode correr mal. Mesmo mal.

Agora! Vá! Com força!

5 segundos.

O engasgo. O som asmático dos brônquios em luta com alguma coisa que não é ar, que não devia estar ali, que não sei como entrou – sorrateiramente, à traição, com toda a certeza! – que não consigo expelir, que vai entalar-me.

Bato-lhe com força. Acorda! Ajuda-me!

O que foi? O que foi?? Miguel??

6 segundos.

Atabalhoação.

Um pesadelo, provavelmente. Estava num pesadelo e acordou estremunhado, aparvalhado. Pronto, pronto, já passou, Miguel, está tudo bem. Sim?

Miguel??

O corpo contorce-se, debate-se, tenta aspirar e expirar o gás, sem sucesso, numa cena que faz lembrar um filme de mafiosos, num daqueles momentos em que alguém tem um saco de plástico amarrado na cabeça. Mas sem o saco.

7 segundos.

A Revolução dos Cravos. Passavam dois meses quando o publicou. Intitulou-o, ao artigo, "Pop Goes the Cafe Coronary". O movimento, esse, é conhecido pela Manobra de Heimlich.

Percebeu, finalmente. Está a colocar-se na posição para o abraço. Sinto-a envolver-me e apertar o nó. Ainda me safo. Ainda não é desta.

8 segundos.

Primeiro aperto. Sem muita força, mas suficiente para sentir que alguma coisa se deslocou, desprendeu-se, abriu um espaço por onde saiu algum ar. Não entrou quase nada mas já se vê uma luz. Pequenina, é certo, mas já se vê.

Ainda me safo. Ainda não é desta.

9 segundos.

Nova tentativa a solo. Uma merda. Estou na mesma: mal entra, mal sai. Mais adrenalina. Mais sons asmáticos. Mais convulsões.

Mais tentativas.

15 segundos.

Já tentaram suster a respiração e cronometrá-la? Eu, já. Provavelmente fizemo-lo todos. Na infância, pelo menos. Várias vezes. Achava piada à brincadeira e tentava ultrapassar o meu próprio tempo. Tenho uma ideia muito vaga sobre os registos, mas lembro-me que não eram poucos segundos. Também não seriam minutos. Talvez um minuto. Ou um minuto e tal, não sei...

Parece-me ridículo passar-me do juízo quando passou tão pouco tempo. Mas há um aspeto que abre um abismo entre essas brincadeiras e uma situação tão real: Não temos o controlo; não temos a certeza se vamos conseguir ultrapassá-la.

16 segundos.

Escuro. Luz difusa por entre as frestas da persiana, silêncio quebrado apenas pelos espasmos. Dois corpos. Sem voz.

Lembras-te de quando te falo em atuar de forma adequada, com energia, com eficácia, nas situações de crise? E de como distingo as situações normais desses momentos mais críticos? Lembras-te disso? Este, é um desses momentos. Não guardes a energia para o futuro porque não haverá futuro se a guardares.

Faz isso com força, como se não houvesse o amanhã, como se o mundo dependesse desse abraço, como se a minha vida dependesse – e depende! – dos teus braços! Parte-me as costelas, se preciso for! Várias vezes, vá! Com força, sem meiguices!!

20 segundos, mais coisa, menos coisa.

Ar. Ar, finalmente. Não apenas ar, mas a promessa de mais ar, de mais dias, de um futuro que não acaba hoje, ainda não, ainda não é desta, ainda não apaguei a vela, e, em abono da verdade, nesta situação, não conseguiria, mesmo que quisesse.

Não, não ponhas o CD dos Doors nem mandes baixar as luzes. Já não é preciso.

60 horas. Epílogo.

Nós, enquanto humanos, sentimos uma tendência natural para criarmos mecanismos de defesa, proteções, coisas que nos permitam evitar, mais do que enfrentar, as ameaças externas e os riscos. É legitimo, é importante, e, claro, é adaptativo (!)

No entanto, há um aspeto que, regra geral, descuramos e que é igualmente importante: Os mecanismos que nos permitem reagir e, sobretudo, ultrapassar e recuperar do impacto em situações de crise.

E porquê, I hear you ask? Porque temos a convicção (a fé?) que conseguimos, simplesmente, evitá-las. E isto, meus amigos, não pode ser menos verdadeiro – não conseguimos controlar todas as coisas; temos que assumir que as ameaças podem concretizar-se, independentemente do que possamos fazer para evitá-las.

Dito de outra forma, shit does happen. E eu, pela minha parte, já comecei a preparação: aprender a variante a solo da Manobra de Heimlich. Porque posso estar sozinho da próxima vez e...