Sobre o aumento da criminalidade na Internet

Nuno Miguel Maia, no JN:

As denúncias, na PJ, por crimes praticados envolvendo a Internet aumentaram tanto que estão a ultrapassar o número de queixas por ilícitos de outras áreas. Este crescimento levou a PJ do Porto a apostar em acções de prevenção em escolas. Que querem mais.

(...)

O número de participações por crimes informáticos tem crescido de forma estrondosa. Está já a ultrapassar o número de crimes de outras áreas que não as da Internet. Por isso, não há recursos para, sem prejudicar investigações, acudir a todas as solicitações. Se pudermos aceder a 40% dos pedidos em cada ano já será bom, explica, ao JN, João Batista Romão, director da PJ do Norte.

Falamos dos mais variados tipos de crime: injúrias, "phishing", burlas, divulgação ilícita de fotos, usurpação de identidades, contactos com vista a práticas sexuais e pedófilas, devassa da vida privada, acesso ilegítimo a dados pessoais, entre outros.

Em 2008, quadruplicou o número de pedidos de escolas para acções de esclarecimento. Houve, por isso, necessidade de disciplinar os pedidos, através de um acordo com a Direcção Regional de Educação do Norte, acrescenta o responsável.

in Aumento de crimes na Internet entope PJ.

Antigamente, naquele tempo em que a coisa mais complexa lá em casa era um televisor a preto e branco, os pais e os avós tinham uma experiência de vida que lhes permitia ensinar, com saber, aos filhos e aos netos, muitas defesas contra mil e uma armadilhas que iriam encontrar, que iriam enfrentar ao longo da sua vida. Hoje, isto já não é assim, e é aqui que começa o problema: na falta de saber e experiência dos adultos.

O problema começa na falta de conhecimento sobre os temas que giram em torno da Internet, por um lado, e, por outro lado, na falta de tempo de qualidade para poderem analisar, em família, os problemas e os desafios que os mais jovens têm que enfrentar no dia-a-dia, seja no mundo físico, seja naquele que é chamado, erradamente, o mundo virtual (e ponho a tónica no chamado porque, em abono da verdade, e em rigor, é tão físico quanto um mundo pode ser).

O trabalho de sensibilização nas escolas é extremamente importante e tem imenso mérito. No entanto, apesar de ser um trabalho estritamente necessário, parece-me insuficiente. Insuficiente, não por que seja mal conduzido ou limitado pela capacidade de resposta dos intervenientes, mas porque não consegue endereçar o outro vector fundamental: as famílias; os adultos lá de casa.

É evidente que as campanhas nas escolas devem ser promovidas, devem continuar a ser desenvolvidas e endereçar os educadores e os alunos, mas é igualmente importante investir na formação dos próprios pais – vão ser eles que vão continuar o trabalho lá em casa, vão ser eles que vão compreender os problemas e ajudar a encontrar, em conjunto, as soluções. No limite, quando estiverem eles próprios preparados, vão ser eles quem vai estar alerta e, naturalmente, irão ensinar, directamente, as melhores formas de evitar as armadilhas e enfrentar os ataques. Enquanto isto não acontecer, vão ser apenas o outro lado do problema: vão estar ausentes.

Também é evidente que os mais novos vão oferecer alguma resistência, e vão fazer aquilo que é próprio da sua idade: tentar ignorar e fazer como bem entenderem. Mas isso sempre fizeram, mesmo com o acompanhamento dos pais. Agora, imaginem que não havia acompanhamento nenhum... E é por isto que a formação dos pais é indispensável.

(Note to self: Ora aqui está uma oportunidade de negócio interessante, e que é tão necessária como o pão para a boca... Gotta think about this further...)

Para fechar esta nota, deixo-vos ficar esta ideia: a primeira coisa que temos compreender e ensinar, na minha opinião, está muito bem ilustrada num cartoon de Peter Steiner, um cartoon publicado no New Yorker, que diz qualquer coisa assim: On the Internet, nobody knows you're a dog (nor a bitch1, digo eu...).

E este conceito – tão importante (!) – pode ser o ponto de partida para o caminho que tem que ser trilhado, um passeio que vai passar pela exposição dos perigos e pela aprendizagem das defesas. Desde que os pais queiram. Aprender, claro.

1 No sentido literal. Ou seja, cadela ; ) ...